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26 de abril de 2012

Marley


       Obrigada pela alegria que me davas todas as manhãs, pelo rabinho que abanavas a cada chegada minha ao portão, pelo teu jeito único de me proteger, pelos beijinhos de focinho sempre que eu me encostava na janela, pelas travessuras, pelas brincadeiras, pelas minhas roupas que rasgastes, pelo banho que eu tomava ao te dar banho, pelo livro de Psicologia da biblioteca da faculdade que você rasgou, pelos sustos que me davas quando, sem querer, te soltavas e ia pra cima das visitas.
        Obrigada pelo denguinho que fazias quando deitavas ao chão, pelas poses engraçadas que fazias quando dormias, as quais me renderam alguns longos risos; pela carinha engraçada em frente ao ventilador, pelas comidas que eu sempre tinha que dividir por não resistir ao olhar “pidão” mais lindo do mundo; por todas as torradas que eu te dei no café da manhã, pelo teu jeitinho único de pedir carinho.
      Obrigada por se esconder quando sabia que tinha feito alguma coisa errada, por ser verdadeiro sempre, por brincar de morder, mas nunca o fazer de verdade; por ter me transformado, por te me amado sem pretender algo em troca e sempre que, por muitas vezes, eu nem fiz por merecer. Obrigada por não ter levado em conta as vezes em que eu passei por ti sem te fazer um carinho e as vezes em que falhei como “mãe”.
      O nome foi escolhido pelo livro e pelo filme porque eu esperava que ficasses ao meu lado por muito tempo, mas, infelizmente, nem sempre tudo sai como planejamos. Só quero te agradecer por todos os momentos de alegria que me destes, por todo o choro que consolaste, por cada demonstração de afeto a teu modo, eu te queria aqui, agora, pra poder te chamar de “pretinho” de novo, mas ainda bem que existem as lembranças, assim eu posso te ter em mim sempre que a saudade vier me procurar.

Te amo, que Deus te abençoe. Descanse em paz.

Marley nasceu no dia 10 de julho de 2010, faleceu hoje (26.04.2012), pela manhã, após uma parada cardíaca e de uma semana sob medicamentos fortes, antibióticos e visitas diárias à clínica veterinária. Foi um cão exemplar, que me fez saber um pouco do que é a doação no amor. Talvez ele tenha passado por mim para me deixar essa e outras grandes lições e me provou que, se quisermos, pode-se transformar o mundo através do amor.

"Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo" (O Pequeno Príncipe)

7 de abril de 2012

Pode ser

       Começa com uma lembrança, depois vai delineando um sorriso bobo seguido de uma lágrima que sorrateiramente cai entre os dedos cruzados das mãos e termina com uma dor e um aperto no peito. Essa tal saudade embriaga, emudece, transforma. Saudade de quê? Saudade de quem?
           Essa saudade pode ser de um livro de heróis, mocinhas, vilões, bruxas, fadas, príncipes e princesas que um dia eu li e acreditei que poderia encontrar na esquina da minha rua. Pode ser das histórias de Fada do Dente a Coelhinho da Páscoa que um dia ouvi. Pode ser das noites em que passei em claro esperando o Papai  Noel deixar o meu presente ou das surpresas que eu tinha quando ele conseguia deixá-lo sem que fosse visto, ou será que são dos anões que eu acreditei terem feito o laço do meu embrulho?
          Essa saudade pode ser daquela música que eu ouvia repetidas vezes sem cansar e em cada uma delas eu descobria um novo jeito de entender suas entrelinhas. Pode ser daquela que me fez dançar, daquela que me fez chorar, daquela que era tocada só para mim, daquela que me fez sorrir, daquela que virou trilha sonora do meu romance, daquela que me transportava a outro estado, daquela que me levava aos braços de Morfeu, ou até daquela que me fez entortar os lábios. 
        Essa saudade pode ser do tempo, do vento, do mar, dos atrasos, dos passeios, das pegadas na areia, da alegria, do calor ou do frio, das flores, das cartas, dos perfumes, dos filmes, do colo, dos anseios, das precipitações, dos sonhos, dos planos, das pinturas, dos desenhos, das fotos, das cores, do piano, da vida.
          Essa saudade pode ser do vazio, pode ser daqueles dias, pode ser daquelas noites em que eu estava completa, pode ser do banho de chuva, pode ser do carinho, pode ser da inocência, pode ser do afago, do cafuné, da voz que me acompanhava, pode ser das piadas, dos  sarcasmos, da poeira, do suor, pode ser das luzes, pode ser do breu, pode ser do mato, da estrada, dos olhos dele. 
          Essa saudade pode ser das pessoas que tive e hoje não tenho, das pessoas que via e não vejo, das que me ouviam e não ouvem, das que eu ouvia e não ouço, das que eu abraçava e não abraço, das que eu beijava e não beijo, das que me consolavam e não consolam, das que me olhavam e não olham, das que me admiravam e não admiram, das que me amaram e não amam. Essa tal saudade pode ser do que fui e deixei de ser...

30 de março de 2012

Gole


                                 Imagem: floraisdebaco.blogspot.com
 Oito taças de vinho. Se eu ainda souber contar, acho que foi isso que bebi antes de escrever isso aqui. Eu não aguento mais, preciso dizer que rasgaste meu peito. Meu coração, hoje, é uma ferida aberta pulsante, dilacerada a cada vez que beijo outra pessoa na tentativa de te esquecer. Não cicatriza, não sei mais o que fazer. Essa agonia insana não passa, não para, só dói e me corrói, aos poucos, sem dó. Volta aqui, preciso de ti.
 Sete taças de vinho. E minhas companhias dessa noite são cartas amareladas espalhadas pelo chão junto às pétalas marrons de uma rosa que um dia foi vermelha. Talvez ela seja como o amor, talvez por isso o vermelho represente a paixão, o rubro forte, intenso, mas de beleza tão sutil e delicada.
Seis taças de vinho. É, o amor é como uma rosa vermelha nova, cheirosa, marcante, mas que com o tempo, por mais que ela seja cuidada, fora da roseira ela murcha, escurece, perde a proteção de seus espinhos e aos poucos vai morrendo até que fica sem cor, despedaçada entre meus dedos.
Cinco taças de vinho. Eu sempre quis a segurança de um colo tranqüilo, a companhia sem culpa, o fogo insaciável de um amor como o teu. Eu sempre quis a vergonha de ser sem vergonha pra tudo, pro mundo, em busca de alguém que pudesse me fazer rir de qualquer coisa sem graça, que me fizesse ver cor em fotos em preto e branco e que me fizesse sorrir ao ser lembrado por mim.
Quatro taças de vinho. Já sentei no sofá, os pés estão descalços e eu sempre quis a sede de ter a certeza de te ter aqui assim, pra sempre, mas de tão boba te troquei por sonhos vagos de um castelo de palavras sem semântica, sem importância, que só queriam me tirar de ti, que só queriam te tirar daqui.
Três taças de vinho. A música que está tocando na rádio é a nossa, nem sei porque isso, ela já está velha demais, pensei que ela só estivesse na minha playlist. Quer saber? Eu tô feliz. É, feliz porque tens vivido dias intensos, porque não sentes falta do meu abraço, do meu beijo, do meu quarto. Fico feliz por saber que usas as mesmas frases e por saber que pretendes continuar o meu plano para o nosso futuro.
Duas taças de vinho. Eu tô chorando, não sei porque, não há razão pra isso, eu tô feliz, lembra? Recebi um telefonema, dele, lógico. Ele me disse frases lindas de amor, falou da saudade dos meus beijos e da minha companhia. Falou do que vai fazer quando nos encontrarmos de novo, falou de... Planos. Tá, chorei porque não estava nos planos que os planos tinham de ser planejados com ele. Sim, fui redundante, e aí?
Uma taça de vinho. Cheguei em casa cansada, tive um dia cheio no trabalho, não tive tempo pra quase nada, mas adorei o buquê de flores que recebi, o jantar foi lindo. Passei em casa só pra tomar um banho e colocar um vestido. Me senti uma princesa, mas de tão nobre eu esqueci de agradecer o buquê, mas não importa, ele sempre liga.
Nenhuma taça de vinho. Tô bem e feliz, nunca me senti assim antes, alguém aqui ta me fazendo maravilhosamente bem e me completando de forma grandiosa, e eu correspondo da mesma forma. É amor, eu acredito, daqueles que só se vê igual em filmes e novelas, daqueles de contos de fadas com sérias probabilidades de final feliz, hein! Não, não estou mentindo, mas que tal beber uma taça de vinho?

22 de março de 2012

Sem memória

A última vez que estive ali fora há uns quarenta anos e uns trocados. Não foi de propósito que me sucedeu estar ali novamente. Sem querer, ou por ironia do destino, meu carro quebrou em frente àquela casa amarela, de pátio e varanda, sem cão de guarda e com uma cadeira de balanço na entrada.
Chamou-me atenção o número da casa, exposto em grandes fôrmas douradas, organizados sutilmente de forma transversal ao lado de um caixa de correios discreta e graciosa, que por alguns instantes remeteu a algo da minha infância, entretanto, o pensamento logo se esvaiu quando, à minha frente, surgiu um senhor oferecendo auxílio. Ele não aparentava ser muito velho, pelo menos não tanto quanto eu, mas já somava algumas boas primaveras.
Batendo à casa da frente, o homem pediu à jovem vizinha da casa amarela a caixa de ferramentas do marido. Ao entregá-las a ele, a moça de coração nobre me pediu para entrar e esperar enquanto o vizinho prestativo verificava e tentava consertar os danos do meu veículo.
Pollyana, era o nome dela, a moça da casa amarela, que me contou sobre sua vida, seus planos e contou a história daquela casa, só então percebi que a sala não estava igual, o teto agora era delineado a gesso. Pedi para que ela me apresentasse os outros cômodos e cuidadosamente ela me conduziu até o quarto do bebê que estava a caminho, não havia mais aquele ventilador de teto velho e barulhento, a cor do quarto agora era azul.
O quarto dela era de uma nuança rosé suave e com um banheiro amplo e claro, já não havia mais cortinas ou ladrilhos, era todo arrematado em mármore, espelhos e granito. O banheiro das visitas estava maior, o quarto de minha irmã agora era uma suíte para os hóspedes e a cozinha que minha mãe desenhou, fora substituída por outra planejada e modulada.
Na varanda, algumas peças de roupas estendidas no varal, tal qual antigamente aos sábados e domingos. No muro, os cacos de vidro foram substituídos por uma cerca elétrica e nas laterais da casa câmeras que substituíram aquele que pulava sobre mim sempre que eu abria o portão. Portão? Hoje ele não precisa de cadeados e chaves, ele é elétrico e carece apenas de um controle que cabe entre os dedos ou esconde-se na palma das mãos.
O vizinho tocou a campainha, não necessitava mais das palmas. Pollyana foi atendê-lo enquanto eu admirava o jardim de inverno que ela havia feito em uma das laterais da casa. Poucos minutos depois, veio me buscar, meu carro estava pronto. Passei pela porta da sala que, agora se abria em folhas; dei a última olhada pela lateral, na esperança de ver o meu melhor amigo vir correndo ao meu encontro, mas nada aconteceu.
Pollyana me abraçou e se despediu, fechou a porta. Olhei novamente e atentamente ao número da casa. Sorri, chorei, sorri. Agradeci ao vizinho prestativo pelo conserto do carro e voltei para a minha cadeira de balanço. Tomei alguns remédios e voltei a olhar para a janela e lembrar a minha juventude... Já contei a história do parque?


12 de novembro de 2011

Cerne


Chega! Por favor, para com essa mania de se apaixonar tão rápido, de se perder loucamente e de se aventurar sem ter certeza do que você irá encontrar do outro lado. Ei, você já tem mais de duas décadas, já deveria ter se acostumado com isso e não ter se deixado levar pelas palavras. Eu sei que seu companheirinho lá de cima demora a processar essas coisas, ainda mais quando é tão rápido e sem explicações assim.
Entenda uma coisa: essas promessas não foram ditas pela primeira vez a você, esse discurso já estava pronto, às vezes ele é sujeito à modificações com o tempo, ou só se repetem mesmo. Para de acreditar que aquelas palavras eram sinceras, porque talvez nem fosse aquilo que ele estivesse sentindo. Por favor, eu estou tentando te ajudar. Você há pelo menos cinco anos passa pelas mesmas coisas, e mesmo assim ainda insiste em acreditar que aquele sentimento existiu? Então me explica como ele desapareceu em poucas semanas?
Lembra do início? Então responde: Quais foram as palavras? Mudaram em relação ao último? Viu? Eu te falei! Agora vê se para de ficar nervosinho aqui dentro, para de provocar essa dor que eu já não tô mais agüentando. Eu tento dormir e você não sossega. Tá, não é pra sossegar tanto, sabes bem que eu preciso de você, mas assim não dá! Eu preciso de você bem e feliz, e não me acordando às três da manhã doendo e gritando desesperadamente.
Quantas vezes eu te avisei pra tomar cuidado? Por que foges assim de mim quando eu menos espero? Já disse pra não se acostumar com estranhos e ficar quietinho aqui até ter não ter dúvidas, mas não, vais embora feito um passarinho sem dono e quando te acertam a asa esquerda voltas pra casa, sangrando, ferido e destroçado. Imaginas o quanto me dói te ver assim? Eu me sinto extremamente responsável por você, mas não compreendes que eu só quero o melhor pra você, porque é isso que mereces: O melhor!
Promete pra mim que dessa vez vai ser diferente? Que por mais que as palavras te encham de satisfação não vais acreditar logo que é amor? Mostre que tem medo, pulse devagar, não acelere e não me deixe inquieta, porque eu não sei o que fazer. Quando estás a mais de cem por minuto eu não sei se presto atenção em alguém ou se cuido de ti antes que me mates. É, podes me matar, sabia?
Vamos fazer um acordo. Cuida de mim e me deixa cuidar de ti. Eu te amo porque és meu, então aprende a me amar, porque eu também sou tua. “Eu vou estar aqui pra você, pra sempre”, lembra sempre disso. Nós dependemos um do outro, me deixa te proteger só dessa vez? Quando eu gritar, por favor, me escute. Quando der vontade, por favor, não procure. Quando lembrar, por favor, esqueça. E quando sentir saudade... Não chore.  


Fonte Imagem:http://coisasecriticas.blogspot.com

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12 de julho de 2011

Único (a)

     
  Ela vive das lembranças que ele deixou, cada detalhe daqueles anos ficaram guardados em algum lugar, que ela não sabe nem quer saber onde fica, a única coisa que sabe é que ficam escondidas e voltam, de vez em quando, com os gestos mais simples que ela faz, ou nos presentes que ele deu e ela fez questão de reunir dentro de uma simples caixinha de madeira que fica guardada como um tesouro no fundo de uma gaveta... 

       Ela sempre fora sensível demais para sentimentalidades, era como um cristal ou uma rosa, qualquer passo incerto dele, a despedaçava ou a fazia murchar por dentro, ele não entendia isso, achava que ela tinha que aguentar tudo que ele fizesse, dissesse e quisesse, entretanto, ele era, para ela, perfeito em sua imperfeição.

       Ela não queria ligações a todo o instante, mas ao menos uma em algum instante, para que ela soubesse que o pensamento dele em algum momento parou em função dela. Ela não queria todos os minutos do dia dele, mas ao menos um minuto antes de dormir para ouvir a voz dele dizer : "Boa noite, durma bem."

       Ela não queria que ele fosse presente a todo o momento, mas que ao menos ausência fosse menor que a presença. Ela não queria todos os beijos, apenas os melhores que ele podia dar. Ela não queria promessas, apenas respostas. Ela não queria brigas, só um pouco de atenção. Ela não queria controlar, apenas fazer feliz. Ela não queria respirar, apenas beber esse amor.

      Ela não queria a jóia mais cara, um carro importado, muito menos um buquê de flores... O que ela queria era apenas uma rosa, uma margarida ou uma flor qualquer, arrancada do jardim mais simples do mundo, mas com a intenção de amor mais nobre de todas. Ela não queria palavras, versos, ou cartas com frases feitas, ela só queria demonstrações de afeto incondicional.

        Ela não queria muita coisa, a não ser... Ser única, mas não para todo o mundo, e sim a única do mundo para ele, queria ser dele, só dele, pertencer e queria que ele deixasse ser único, apesar de já ter sido para ela o único, entretanto, por mais que ela tentasse ele não deixava que ela o fizesse único, por isso se foi e ela vive das lembranças que ele deixou...

Fonte Imagem: ariadnecavalcante.blogspot.com

5 de julho de 2011

Mais um dia sem você

             Acordei assustado, tive mais um sonho daqueles, resolvi então dar uma volta pela praia, era madrugada e caminhando pela areia eu me pus a lembrar de quantas noites eu passei em claro à espera de um telefonema, um recado, um sinal de sua saudade reclamando a minha presença. Perdi a conta de quantos passos eu deixei marcados na areia chorando a sua ausência, de quantas vezes eu pedi a Deus pra te esquecer e pra que fosse fácil te tirar de dentro de mim.
            Desde que você se foi eu vivo a pedir. Pedir para que eu possa ver teus olhos pela manhã, para que eu possa ser o responsável pela alegria dos teus dias, para ser aquele que olharás com amor e chamarás de “meu”, para que teu carinho seja reservado a mim, para que as tristezas do meu olhar possam ser trocadas por sorrisos, para que tuas mãos voltem a se entrelaçarem nas minhas, para que teu riso seja o reflexo da minha chegada, para que nas noites de frio eu seja o corpo te aquece, para que meu amor possa ser tudo o que você precisa.
          Difícil é saber que nem em teu pensamento me tens por perto, que teus verdadeiros versos de amor não são ditos para mim nem no silêncio do teu olhar. Difícil é ter que acreditar que tuas palavras tão ternas, nunca passaram de falsidades bem apontadas, que acertaram o meu coração, fazendo-o refém de um amor que, talvez, nunca tenha existido.
           Teu desprezo, teu esquecimento, tuas palavras vagas, tua voz que não escuto nem para me dizer que eu sou pior namorado que você já teve, que eu sou o pior erro da tua vida, e que tu não sabes como me amas tanto, mesmo que qualquer uma dessa frases fosse uma grande verdade ou uma mentira de mesma proporção, bom mesmo era o efeito que elas me causavam e a alegria que elas me traziam.
            Eu caminhava ao teu lado, saí um instante em busca de um caminho melhor para nós, e foi nesse instante que te perdi, não sei bem o dia ou hora, mas quando me dei conta já não eras minha, tua impaciência colocou outro em meu lugar, mas meu amor foi tão grande que te dei o tempo necessário para teres certeza de que, por mais que tentasses escapar ou fugir de um destino, voltarias no momento certo e terias certeza de que eras minha, assim como há tempos eu já tinha a certeza de ser teu.
            Apesar das tuas faces imperfeitas, fiz de ti minha perfeição. A felicidade que me davas era bem maior que qualquer “erro” teu, e tuas palavras, por mais falsas que fossem me confortavam de alguma forma e me impulsionavam ao querer-te por toda a vida. Nenhum plano foi traçado sem que o pensamento estivesse em você, nenhum sonho foi vivido sem a tua presença, assim como ninguém entrava em minha vida, pois meu coração sempre esteve à tua espera.
           Eu fui teu amor, teu amante, teu amigo, teu companheiro, teu confidente. Hoje, era o mar que estava a me ouvir, o vento, que me fazia fechar os olhos, me levava até você. Mesmo ouvindo os teus ‘nãos’, eu tentava entender o que era aquilo, que diferente do tempo, não passava, mas se fortalecia em mim. O que é amar esperando na incerteza de ter um dia? O que é amar independente do que todos digam? O que é te esperar por todo o sempre, mesmo que me digam que o melhor mesmo é desistir? O que é esperar que o meu sempre um dia seja o nosso?
           O tempo foi passando, o dia nasceu e eu continuei chorando, o mar que estava em minha frente parecia ter sido feito de lágrimas minhas, acredito mesmo que se eu pudesse unir todas que derramei por ti, eu formaria um oceano delas. Dói. Dói ter que aceitar que eu não fui o escolhido, que sou a pessoa errada, que a cada dia eu tenho menos espaço em tua vida, e que eu já não tenho espaço no teu coração, entretanto, um mínimo gesto teu renova as forças do meu pulsar.
           A tarde veio e eu estava fraco, fraco de tanto chorar, mesmo assim não deixei de te amar, mesmo sabendo que jogas com o meu coração, usa-o como um brinquedo, joga-o no chão, e pisa nele com suas palavras em defesa de seu brinquedo novo. Sinto que tua indecisão te afasta cada vez mais do meu sonho de me ter em ti.
          Quanto ao dia? Se foi. O sol agora vai se pondo e eu continuo à espera de que um dia a tua saudade volte a me procurar...

Foto: Raíssa Bahia (Colares - PA)

5 de março de 2011

Anjos - Final

  ...No período de um ano depois da perda do meu anjo, muitas coisas aconteceram e minha vida tomou rumos bastante vergonhosos. Sim, tenho muita vergonha de dizer que por fraqueza e covardia, eu não consegui aceitar o fato de viver sozinho com uma filha pequena, achei que não daria conta. Perdi completamente a fé em Deus, perdi o emprego e me tornei um alcoólatra. Sempre tentei dar o melhor à Luma enquanto Isadora estava ao nosso lado, depois que ela se foi, eu dediquei meu tempo e meu dinheiro à noites em mesas de bares, enquanto minha filha, ficava em casa esperando a noite chegar para encontrar a sua mãe em meio ao céu estrelado. 

    Um dia, cheguei em casa bêbado como de costume, e pude presenciar uma cena lastimável. Ao entrar no quarto de Luma, a avistei sentada na sacada e aos prantos ela conversava com o céu. Ela disse palavras que jamais esquecerei:"Mamãe, por favor, pede para o papai parar de chegar tarde em casa e me deixar sozinha porque eu tenho medo, eu gosto de passear, mas ele nunca me leva com ele, diz que é coisa de adulto. E pede também para ele parar de me bater, a mão dele é grande e por mais que eu me encolha na cama, ela me machuca. Volta para contar minhas histórinhas, mamãe!". 

    Eu não tive condições de continuar naquele lugar, senti vergonha, aflição e no peito uma vontade de fugir era imensa, mas não podia deixar minha filha de quatro anos sozinha e desamparada. Naquele mesmo dia, prometi que jamais encostaria a mão nela de novo, pararia de beber e tentaria seguir minha vida sem Isadora. Consegui passar um bom tempo sem a presença do álcool, me sentia angustiado, mas a alegria de Luma pela minha mudança, me fez ter um novo motivo para ser perseverante e lutar contra o meu vício. A cada dia, Luma ficava mais parecida com a mãe, nas atitudes e gestos de carinho, além da semelhança física. Era como se antes de partir, meu anjo tivesse se preocupado em não me deixar sozinho.

    No aniversário de cinco anos de Luma, alguns vizinhos resolveram organizar uma festa para ela, cada um levou uma coisa e fizemos uma comemoração, porém, alguém levou uma garrafa de whisky e por mais "limpo" que eu estivesse, a tentação falou mais alto. Tudo começou com a primeira dose dupla, depois a tripla e assim eu fui me embriagando. Luma não aguentou, dormiu cedo e nem esperou todos os convidados se retirarem, eu fiz as honras da casa e só me ausentei quando o último convidado atravessou a porta. 

    Cansado, acendi um cigarro, preparei a última dose de whisky e fui ao quarto de Luma para ver se ela estava bem, e estava, dormia feito um anjo, em seus lábios eu via um sorriso, acho que ela estava sonhando com a mãe, talvez no sonho, ela estivesse contando à uma estrela como fora a sua festa. Sentei-me ao lado da cama dela, e acabei adormecendo. Não sei por quanto tempo eu dormi, só lembro que acordei sufocado e, não pude ver nada, pois a fumaça invadia os meus olhos, chamei por Luma e não a encontrei, então me dei conta do barulho das sirenes, alguns gritos que vinham da rua, choros e algumas batidas fortes à porta.

  Não queria saber de mais nada, a não ser, sair daquela casa com a minha filha no colo, o fogo invadia os outros cômodos, entrei em desespero e, de repente, alguém me segurou forte e me tirou dali. Recebendo os primeiros socorros, a avistei, Luma vinha sendo carregada por um bombeiro, com o corpo inteiro queimado, logo ela ficou cercada de médicos, foi colocada na ambulância e seguiu sem a minha companhia, por mais que eu fosse o pai, eu estava bêbado e não me deixaram ir com ela.

    Recebi a notícia da morte de minha filha no dia seguinte, ela não resistiu às queimaduras e se foi. A causa do incêndio? Um copo de whisky e um cigarro aceso em cima de uma cama. Perdi mais um anjo, imagino o quanto Isadora deve ter se desapontado comigo, eu acabei com a vida do presente que ela havia me deixado. Se eu pudesse voltar no tempo, eu teria comprado um laço rosa mais bonito, papel de seda e uma caixa de presente, para que o meu presente estivesse seguro e protegido até de mim. 

...Meu nome é A.J., tenho trinta e oito anos, é a terceira vez que estou aqui, sou alcoólico e há exatos um ano e seis meses não tenho contato com o álcool, eu tinha uma família feliz..."




FonteImagem: 2.bp.blogspot.com/_ms_xDJ04AJc/TCuF94y1yqI/AAAAAAAAAbE/vmQrlvUULeQ/s1600/alcoolismo.jpg

27 de janeiro de 2011

Despedida



Foram risos e choros contidos
Foi um laço de risco, um traço,
mas todos feitos contigo.
Foi um rabisco perfeito,
ou uma fórmula errada de amor que,
surtiu efeito e virou acerto.

Quando eu quis um ombro,
fostes o amigo.
Quando eu quis proteção,
fostes o anjo.
Quando eu quis carinho, 
fostes o irmão.

Talvez o arco-íris traduza
o que o desenho feito a giz,
por aquela criança, representa.
Talvez o menino esqueça
que o diamante nem sempre
fora tão lindo e brilhante.

A distância pode maltratar,
mas os raios de sol,
sempre aparecem calados
depois de um dia nublado.

Como a maior estrela que apareceu,
ele veio, ficou e não desapareceu.
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